Os números estão aí. Não gosto daquela frase "contra fatos (ou números, dirão alguns) não há argumento", porque cada um pode ver números e fatos de vários lugares e, portanto, atribuir os mais diversos sentidos. Daqui do meu canto, vendo as informações divulgadas pelo IBGE me animo e, sem ingenuidades, vejo que estamos entrando em um (novo)outro momento histórico, bem diferente do que tínhamos há dez anos atrás quando o Brasil pediu socorro ao FMI...bem diferente de vinte anos atrás quando se chamou os anos 80 de "década perdida"...As barrinhas e setinhas inevitavelmente apontavam mais negatividade que positividade...Estamos com um milhão de pobres a menos...Leio na Carta Capital que trata-se de uma redução que se dá no meio da maior crise do capitalismo mundial desde 1929. No apagar das luzes da Era FHC, em janeiro de 2003, registrava-se 49 milhões de pobres, um total reduzido agora para 28,8 milhões. Ainda que se considere como uma taxa muito alta (e é), há uma evidente trajetória de inclusão com uma inegável velocidade: se considerarmos pobres aqueles que ganham até 1/2 salário mínimo por mês, o percentual da pobreza na população recuou de 44,9% no final do ciclo tucano para 29,7% agora. A renda média dos domicílios (soma de salários, benefícios sociais, aposentadorias,etc) obteve um crescimento de 3,6% ao ano desde 2004. No ciclo tucano, de 1998 a 2003, a renda média dos domicílios brasileiros caiu 4% ao ano. Ou seja, não houve anteparo social contra as intempéries brutais da meteorologia capitalista. Os mercados cuidavam do assunto...como não celebrar uma conquista dessas num capitalismo que mal consegue abandonar seus traços escravagistas?...Coisa para velhos/as e moços/as pensarem...
Quixotes, forrós e baiões
Trocadilhos...trocas...ditos e desditos...mitos e outros personagens podem habitar este espaço...sem controle ou ordem...Pedaços de mim jogados na rede...Garrafas cheias de fragmentos, atiradas ao oceano...a destinos (in)certos...
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
sábado, 4 de setembro de 2010
A maconha medicinal
Publico abaixo um artigo divulgado no último dia 2 de setembro na página do Marcos Rolim (um ex-deputado federal do PT, atualmente afastado da política parlamentar, mas militante dos direitos humanos, e um intelectual brilhante). O artigo discute a questão do uso medicinal da maconha. Trata-se de uma questão obviamente polêmica e que, exatamente por isso, precisa ser discutida de forma qualificada e não com base em preconceitos e impressões apressadas.
Aliás...por aqui pelo RN o pessoal do interior já sabe, há tempos das qualidades medicinais do que chamam de "Diamba"...deu até em noticiário local o caso do uso bastante disseminado da Cannabis Sativa L. por pessoas já idosas...(http://www.youtube.com/watch?v=ZDuSj9khTwk)
"Cannabis Medicinal: Não lemos e não-gostamos?
02 de setembro de 2010
E. A. Carlini
Em Maio deste ano foi realizado o Simpósio Internacional: “Por uma Agência Brasileira da Cannabis Medicinal?” sob minha presidência, contando com a participação de cientistas do Brasil, Canadá, Estados Unidos, Inglaterra e Holanda, representantes brasileiros de vários órgãos públicos, sociedades científicas e numerosa audiência. Após dois dias de intensas discussões foi aprovado por unanimidade um documento recomendando ao Governo Federal a oficialização da criação da Agência Brasileira da Cannabis Medicinal.
Esperava uma discussão posterior, científica e acalorada, pois sabia de algumas opiniões contrárias à proposta. Entre estas o parecer do Departamento de Dependência Química da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) cujos representantes compareceram apenas para apresentar seu parecer, ausentando-se totalmente, antes e depois, de todo o restante do simpósio.
Está havendo sim a esperada discussão, veiculada principalmente através da Folha de São Paulo, mas num nível de entristecer. De fato, expressões como – “o dom de iludir”; “Lobby da maconha”; “Maconhabras”; “uma idéia fixa: a legalização das drogas”; “elementos com pretensa respeitabilidade”; “paixão dos lobistas”; “exemplo de indigência intelectual”; “querem maiores facilitações para o consumo”; “travestidos de neurocientistas”; – não se coadunam com a seriedade que deve prevalecer em qualquer discussão científica. Os autores de tais infelizes afirmações certamente não leram a celebre frase de Claude Bernard, o pai da medicina experimental: “em ciência criticar não é sinônimo de denegrir”.
Por outro lado, os contrários ao uso medicinal da maconha utilizaram de argumentos inverídicos (para dizer o mínimo) quando tentam criar uma atmosfera de pânico, desviando o foco da atenção (maconha como medicamento). Assim:
Legalização da Maconha – O item 6 da carta do Simpósio diz cristalinamente: “o uso clínico dos derivados da Cannabis sativa L ou de seus derivados naturais ou sintéticos não pode ser confundido com o uso recreativo (não-médico) da planta”. Os autores das infelizes frases não leram, portanto, esta resolução. “O uso médico esta longe de receber aprovações de órgãos como a Agência FDA dos EUA”, dizem os autores das afirmativas.
Ora, um princípio ativo da maconha, o ∆9 -THC, está aprovado como medicamento por esta Agência desde a década de 1990, sendo o produto Marinol® produzido e utilizado nos Estados Unidos, e exportado para vários países há quase 20 anos.
Portanto, os autores de tal afirmativa também não leram nada a respeito. Mas não é só isso, pois a maconha e seus derivados também já têm aprovação para uso médico em países como Canadá, Reino Unido, Holanda e Espanha. A Ministra da Saúde da Espanha chegou a declarar: ao aprovar o seu uso para a Esclerose Múltipla: “O uso terapêutico da cannabis é estudado há anos, por isso existem testes clínicos e evidências científicas de sua utilidade em determinadas doenças” Dizem ainda os autores das frases: “O uso terapêutico da maconha não tem comprovação científica. Se recomendado negaria a busca da ciência... por produtos cada vez mais seguros”.
A Dra. Nora Volkow diretora do Instituto Nacional do Abuso de Drogas (NIDA) dos Estados Unidos declarou em Março deste ano a uma revista brasileira “Não existe droga segura”, o que é uma verdade, também para a maconha. Vem daí a necessidade de um médico estudar a relação risco/benefício de qualquer droga que prescreve. Por exemplo, segundo dados do FDA de 1997 a 2005 houve 196 relatos de suspeita de morte coincidente com o uso de antieméticos (uma indicação também aprovada para a maconha). Não houve nenhuma suspeita de morte pelo uso da maconha. Por outro lado a Dra. Valéria declarou também que os canabinóides têm algumas ações terapêuticas úteis como efeito antiemético, aumento do apetite em casos de câncer e AIDS, benefícios analgésicos e em glaucoma.
A alegação de que “não precisamos que o Governo Federal crie, por meio de Secretaria Nacional Antidrogas (SENAD), uma agência para .....a maconhabras” Primeiramente é preciso esclarecer que a SENAD é uma sigla para Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas, conforme já aprovado há mais de três anos; portanto, os autores dos artigos na Folha de São Paulo não leram a respeito. É preciso ainda esclarecer que a SENAD não patrocinou e não auxiliou com qualquer quantia a realização do Simpósio. Por outro lado, por se ausentarem de quase todo o simpósio, não sabem que o solicitado na carta foi a “oficialização” à ONU do nome de Agência Nacional da Cannabis Medicinal; conforme enfatizado pelo INCB, órgão da ONU, em 2009. De fato, as leis necessárias para esta criação já foram aprovadas pela Lei 11.343 de 23/08/2006 e seu Decreto regulamentador nº 5.912 de 27/09/2006.
“A maconha causa dependência” segundo os autores das frases. Ninguém nega esta propriedade indesejável da maconha, como também ocorre com muitos outros medicamentos. Mais uma vez cabe a análise da relação risco/benefício ao se utilizar os derivados da maconha ou de qualquer outra droga. Teriam os autores da frase opinião semelhante a muitos outros medicamentos que são fortes indutores de dependência como morfina e vários outros opiáceos responsáveis por milhares e milhares de casos desta reação adversa? Pretenderiam eles solicitar proibição de uso clínico destas drogas?
“Até hoje há pouco estudos controlados, com amostras pequenas” e “o uso de terapêuticos da maconha não tem comprovação científica...” Muita literatura médica precisaria ser lida para permitir afirmativa tão categórica. Existem já dezenas de livros e centenas de artigos científicos publicados sobre as propriedades medicinais da maconha. Por exemplo, em duas extensas revisões recentes (Journal of Ethnopharmacology 105, 1-25, 2006; Cannabinoids 5 (special issue), 1-21, 2010) mais de uma centena de trabalhos científicos são analisados, a maioria deles demonstrando os efeitos que são negados pelos autores das frases. Estas revisões concluem que: “cannabinóides apresentam um interessante potencial terapêutico, principalmente como analgésicos em dor neuropática, estimulante do apetite em moléstias debilitantes (câncer e AIDS) bem como no tratamento da esclerose múltipla”.
Há ainda a salientar que várias sociedades científicas americanas já se posicionaram favoravelmente ao uso médico da maconha tais como: Associação Psiquiátrica Americana, Sociedade de Leucemia e Linfoma dos EUA, American College of Physicians e Associação Médica Americana. Isto sem contar que os Ministérios da Saúde do Canadá, Estados Unidos, Espanha, Dinamarca e Reino Unido já aprovaram o uso medicinal.
Segundo os autores das frases os proponentes da Cannabis Medicinal usam a “estratégia de confundir o debate” e “...a confusão fica por conta de a ativistas comprometidos com a causa da legalização”.
Ora, esta argumentação poderia bem ser utilizada no sentido oposto, como pareceria ser o caso. Sendo totalmente contrário a qualquer uso da maconha investem contra o seu uso medicinal, parecendo tentar convencer o público de que aprovação do uso médico e legalização seriam a mesma coisa, o que esta longe de ser verdadeiro. É bem possível que um forte sentimento ideológico possa estar por trás da confusão armada, o que seria lamentável. Para continuar uma discussão científica minimamente aceitável dever-se-ia por iniciar a leitura de dois artigos publicados neste ano de 2010, em duas das mais serias e respeitáveis revistas científicas do mundo: “Maconha médica e a Lei” (New England Journal of Medicine 362, 1453-1457, 2010) e “Como a Ideologia modela a evidencia e a política: o que conhecemos sobre o uso da maconha e o que deveríamos fazer?” (Addiction 105, 1326-1330, 2010).
Realmente, sem ler não é possível continuar este debate! Sugiro que todos façam “o dever de casa”, atualizando o seu conhecimento com as leituras de mais artigos científicos recentes.
E. A. Carlini é Professor Titular de Psicofarmacologia – UNIFESP Diretor do CEBRID – Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas Membro Titular do CONED (Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas) Membro do Comitê de Peritos sobre Álcool e Drogas OMS (7º mandato) Ex-membro do Conselho Internacional de Controle de Narcóticos (INCB – ONU) (2002- 2007).
Aliás...por aqui pelo RN o pessoal do interior já sabe, há tempos das qualidades medicinais do que chamam de "Diamba"...deu até em noticiário local o caso do uso bastante disseminado da Cannabis Sativa L. por pessoas já idosas...(http://www.youtube.com/watch?v=ZDuSj9khTwk)
"Cannabis Medicinal: Não lemos e não-gostamos?02 de setembro de 2010
E. A. Carlini
Em Maio deste ano foi realizado o Simpósio Internacional: “Por uma Agência Brasileira da Cannabis Medicinal?” sob minha presidência, contando com a participação de cientistas do Brasil, Canadá, Estados Unidos, Inglaterra e Holanda, representantes brasileiros de vários órgãos públicos, sociedades científicas e numerosa audiência. Após dois dias de intensas discussões foi aprovado por unanimidade um documento recomendando ao Governo Federal a oficialização da criação da Agência Brasileira da Cannabis Medicinal.
Esperava uma discussão posterior, científica e acalorada, pois sabia de algumas opiniões contrárias à proposta. Entre estas o parecer do Departamento de Dependência Química da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) cujos representantes compareceram apenas para apresentar seu parecer, ausentando-se totalmente, antes e depois, de todo o restante do simpósio.
Está havendo sim a esperada discussão, veiculada principalmente através da Folha de São Paulo, mas num nível de entristecer. De fato, expressões como – “o dom de iludir”; “Lobby da maconha”; “Maconhabras”; “uma idéia fixa: a legalização das drogas”; “elementos com pretensa respeitabilidade”; “paixão dos lobistas”; “exemplo de indigência intelectual”; “querem maiores facilitações para o consumo”; “travestidos de neurocientistas”; – não se coadunam com a seriedade que deve prevalecer em qualquer discussão científica. Os autores de tais infelizes afirmações certamente não leram a celebre frase de Claude Bernard, o pai da medicina experimental: “em ciência criticar não é sinônimo de denegrir”.
Por outro lado, os contrários ao uso medicinal da maconha utilizaram de argumentos inverídicos (para dizer o mínimo) quando tentam criar uma atmosfera de pânico, desviando o foco da atenção (maconha como medicamento). Assim:
Legalização da Maconha – O item 6 da carta do Simpósio diz cristalinamente: “o uso clínico dos derivados da Cannabis sativa L ou de seus derivados naturais ou sintéticos não pode ser confundido com o uso recreativo (não-médico) da planta”. Os autores das infelizes frases não leram, portanto, esta resolução. “O uso médico esta longe de receber aprovações de órgãos como a Agência FDA dos EUA”, dizem os autores das afirmativas.
Ora, um princípio ativo da maconha, o ∆9 -THC, está aprovado como medicamento por esta Agência desde a década de 1990, sendo o produto Marinol® produzido e utilizado nos Estados Unidos, e exportado para vários países há quase 20 anos.
Portanto, os autores de tal afirmativa também não leram nada a respeito. Mas não é só isso, pois a maconha e seus derivados também já têm aprovação para uso médico em países como Canadá, Reino Unido, Holanda e Espanha. A Ministra da Saúde da Espanha chegou a declarar: ao aprovar o seu uso para a Esclerose Múltipla: “O uso terapêutico da cannabis é estudado há anos, por isso existem testes clínicos e evidências científicas de sua utilidade em determinadas doenças” Dizem ainda os autores das frases: “O uso terapêutico da maconha não tem comprovação científica. Se recomendado negaria a busca da ciência... por produtos cada vez mais seguros”.
A Dra. Nora Volkow diretora do Instituto Nacional do Abuso de Drogas (NIDA) dos Estados Unidos declarou em Março deste ano a uma revista brasileira “Não existe droga segura”, o que é uma verdade, também para a maconha. Vem daí a necessidade de um médico estudar a relação risco/benefício de qualquer droga que prescreve. Por exemplo, segundo dados do FDA de 1997 a 2005 houve 196 relatos de suspeita de morte coincidente com o uso de antieméticos (uma indicação também aprovada para a maconha). Não houve nenhuma suspeita de morte pelo uso da maconha. Por outro lado a Dra. Valéria declarou também que os canabinóides têm algumas ações terapêuticas úteis como efeito antiemético, aumento do apetite em casos de câncer e AIDS, benefícios analgésicos e em glaucoma.
A alegação de que “não precisamos que o Governo Federal crie, por meio de Secretaria Nacional Antidrogas (SENAD), uma agência para .....a maconhabras” Primeiramente é preciso esclarecer que a SENAD é uma sigla para Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas, conforme já aprovado há mais de três anos; portanto, os autores dos artigos na Folha de São Paulo não leram a respeito. É preciso ainda esclarecer que a SENAD não patrocinou e não auxiliou com qualquer quantia a realização do Simpósio. Por outro lado, por se ausentarem de quase todo o simpósio, não sabem que o solicitado na carta foi a “oficialização” à ONU do nome de Agência Nacional da Cannabis Medicinal; conforme enfatizado pelo INCB, órgão da ONU, em 2009. De fato, as leis necessárias para esta criação já foram aprovadas pela Lei 11.343 de 23/08/2006 e seu Decreto regulamentador nº 5.912 de 27/09/2006.
“A maconha causa dependência” segundo os autores das frases. Ninguém nega esta propriedade indesejável da maconha, como também ocorre com muitos outros medicamentos. Mais uma vez cabe a análise da relação risco/benefício ao se utilizar os derivados da maconha ou de qualquer outra droga. Teriam os autores da frase opinião semelhante a muitos outros medicamentos que são fortes indutores de dependência como morfina e vários outros opiáceos responsáveis por milhares e milhares de casos desta reação adversa? Pretenderiam eles solicitar proibição de uso clínico destas drogas?
“Até hoje há pouco estudos controlados, com amostras pequenas” e “o uso de terapêuticos da maconha não tem comprovação científica...” Muita literatura médica precisaria ser lida para permitir afirmativa tão categórica. Existem já dezenas de livros e centenas de artigos científicos publicados sobre as propriedades medicinais da maconha. Por exemplo, em duas extensas revisões recentes (Journal of Ethnopharmacology 105, 1-25, 2006; Cannabinoids 5 (special issue), 1-21, 2010) mais de uma centena de trabalhos científicos são analisados, a maioria deles demonstrando os efeitos que são negados pelos autores das frases. Estas revisões concluem que: “cannabinóides apresentam um interessante potencial terapêutico, principalmente como analgésicos em dor neuropática, estimulante do apetite em moléstias debilitantes (câncer e AIDS) bem como no tratamento da esclerose múltipla”.
Há ainda a salientar que várias sociedades científicas americanas já se posicionaram favoravelmente ao uso médico da maconha tais como: Associação Psiquiátrica Americana, Sociedade de Leucemia e Linfoma dos EUA, American College of Physicians e Associação Médica Americana. Isto sem contar que os Ministérios da Saúde do Canadá, Estados Unidos, Espanha, Dinamarca e Reino Unido já aprovaram o uso medicinal.
Segundo os autores das frases os proponentes da Cannabis Medicinal usam a “estratégia de confundir o debate” e “...a confusão fica por conta de a ativistas comprometidos com a causa da legalização”.
Ora, esta argumentação poderia bem ser utilizada no sentido oposto, como pareceria ser o caso. Sendo totalmente contrário a qualquer uso da maconha investem contra o seu uso medicinal, parecendo tentar convencer o público de que aprovação do uso médico e legalização seriam a mesma coisa, o que esta longe de ser verdadeiro. É bem possível que um forte sentimento ideológico possa estar por trás da confusão armada, o que seria lamentável. Para continuar uma discussão científica minimamente aceitável dever-se-ia por iniciar a leitura de dois artigos publicados neste ano de 2010, em duas das mais serias e respeitáveis revistas científicas do mundo: “Maconha médica e a Lei” (New England Journal of Medicine 362, 1453-1457, 2010) e “Como a Ideologia modela a evidencia e a política: o que conhecemos sobre o uso da maconha e o que deveríamos fazer?” (Addiction 105, 1326-1330, 2010).
Realmente, sem ler não é possível continuar este debate! Sugiro que todos façam “o dever de casa”, atualizando o seu conhecimento com as leituras de mais artigos científicos recentes.
E. A. Carlini é Professor Titular de Psicofarmacologia – UNIFESP Diretor do CEBRID – Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas Membro Titular do CONED (Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas) Membro do Comitê de Peritos sobre Álcool e Drogas OMS (7º mandato) Ex-membro do Conselho Internacional de Controle de Narcóticos (INCB – ONU) (2002- 2007).
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Impressões sobre a Festa de Santana, 2, o Auto de Santana
Apesar de não conseguir postar tudo o que gostaria na velocidade que considero oportuna, não gostaria de deixar de comentar O Auto de Santana que assisti na Festa da Padroeira de Caicó deste ano.
Para quem não sabe, o Auto de Santana é um espetáculo teatral montado com artistas locais e encenado em Caicó e Currais Novos (lá também tem Festa de Santana em período bem próximo).
Conversando com algumas pessoas da produção fiquei surpreendido ao saber que tiveram apenas 22 dias de ensaio. Pessoas que conhecem o processo de produção por dentro sugeriram que o órgão estadual de cultura não concordou com a proposta apresentada pelos atores locais de que toda a produção (trilha sonora, filmagem, cenário, texto, direção, etc.) fosse feita por pessoas da região. Ao que parece, pretendiam que o processo de produção (técnica, artística e conceitual) continuasse dirigido por profissionais já consagrados da capital. Via-se a emoção dos profissionais (especialmente os atores e atrizes) em conseguirem levar a cabo um processo de produção que parecia fadado ao fracasso, como resultado de uma sutil sabotagem do pouco tempo.
Há um grande desafio em espetáculos como esse que é contar uma mesma história, todos os anos, o que exige que isso seja feito, a cada ano, de uma forma diferente. Para quem escreve, pensa e realiza, trata-se, sempre de, ao mesmo tempo, buscar surpreender os locais que assistem o espetáculo todos os anos, e fazer com que aqueles que assistem pela primeira vez possa se apropriar daquele conteúdo que é, essencialmente, o de mostrar a devoção daquele povo àquela santa.
Nos outros anos, assisti espetáculos cujo texto trazia consistência e beleza, mas tinha uma óbvia generalidade na celebração do povo sertanejo e de Santana. Ficava claro que os autores não "viviam" ali...O texto deste ano, escrito pelo professor Félix, por sua vez, conseguiu trazer e mostrar os elementos vitais do mito fundador da cultura do sertão seridoense (poderia citar o sertanejo "jogado" no meio do sertão sem outra proteção que não sua própria fé, o touro que o ataca e a devoção à Santana que o salva).
Nele, o sertanejo é partejado sob as bençãos e cuidados dos quatro elementos naturais (fogo, água, ar e terra). Tendo perdido uma vaca, o sertanejo clama por todos os santos e santas católicos. Como efeito, os quatro elementos, enciumados pelo sertanejo ter procurado ajuda dessas entidades, castigam o sertanejo com o envio de um touro ameaçador. Em cena, vemos uma criatura que se compõe dos sete pecados capitais que são derrotadas quando o sertanejo, lembrando-se de que aquele dia é o dia em honra a Santana, clama sua proteção. Ela chega, derrota o touro e abençoa o sertanejo.
A agradável surpresa de ver somente artistas e técnicos seridoenses mobilizados a produzir um espetáculo cuja centralidade é mostrar o cerne da própria cultura local me fizeram (re)pensar algumas questões que sempre matizaram minha relação com a cultura seridoense (ou seja, com aquele ambiente que me formou e ainda me serve como lente) e com os artistas locais (com quem compartilhei/compartilho reflexões e projetos).
Assim, o que pode parecer "xenofobismo" artístico (para aqueles que pensam que os "meninos" do interior não teriam competência para produzir um belo espetáculo) é, de fato, demonstração de maturidade e ousadia que merece apoio e desdobrar-se em ações mais consistentes de qualificação do trabalho que lá é realizado, pois, independentemente do êxito desse trabalho, permanecem as lacunas de uma baixa formação técnica; ausência de uma política cultural que implemente mecanismos e processos de manutenção de grupos e formação de platéias; e a ausência de uma visão política (e coletiva) de cultura pelos próprios artistas.
No aspecto técnico, os artistas seridoenses se mantém prisioneiros de cursos esporádicos e o refletir sobre o que se faz, nas péssimas condições em que se faz arte e cultura na região, dependentes de parcerias frágeis e circunstanciais, que não estruturam, a médio e longo prazo, qualquer projeto cultural.
Mas, como já abordei uma outra vez aqui neste espaço, não há também, da parte dos artistas locais, um projeto cultural. Ou seja, não se tem um acúmulo coletivo que defina mecanismos de financiamento e gestão de uma política cultural local; não se apresenta propostas que condensem uma política de formação técnica e de platéia; de familiarização das diversas linguagens entre crianças e jovens. Tudo é incerto. É provisório. É amador.
Por fim, há também uma questão que me parece conceitual, quanto ao sentido que atribuímos ao fazer artístico. Como qualquer linguagem, na arte expressamos conceitos, valores, mensagens, desejos, concepções. Nenhuma arte está imune a isso. A arte é o espaço, por excelência, de significar e ressignificar tudo. No caso específico do Auto de Santana, sempre que o vejo, penso (equivocadamente ou não) o quanto estamos perdendo uma ótima oportunidade de ressignificar os signos que estruturam o Mito Fundador dos próprios seridoenses. E deixamos escapar isso, reforçando todo um conservadorismo que se expressa e se lança como "naturalidade".
O texto de Félix, com todo o seu brilhantismo e profundidade, não consegue (ou não pretende) sequer dar uma "mexida" nos traços mais conservadores da estrutura mítica branca, portuguesa, cristã, que funda a cultura do sertão seridoense. Assim, a narrativa do Auto de Santana deste ano manteve o silenciamento das culturas indígenas milenares que aqui se encontravam antes dos portugueses e que foram destroçadas, restando delas pouco mais que as referências topográficas (que um observador mais cuidadoso inquirirá: "por que nomes cunhados em dialeto indígena sem que encontremos um único indígena no lugar?).
Esse silêncio, presente na lenda primeva se mantém na trama do Auto.
Na urdidura da trama, as forças da natureza se instituem como ameaçadoras ao vaqueiro na medida em que criam o Touro ameaçador, condensador de todos os pecados capitais. Aí vejo duas questões a serem tratadas: uma diz respeito à demonização (do mesmo jeito que ocorre no Mito Fundador) do Touro. Se na lenda de origem da cidade, ele é expressão de um (misterioso) espírito indígena, aqui ele aparece como resultado de uma ira (ou ciúme) das forças da natureza quanto ao apego do sertanejo com as entidades católicas. Dessa forma, o texto reforça uma visão cristã (medieval) que demonizava a adoração (pagã) aos quatro elementos fundadores da natureza e desloca a origem dos pecados capitais dos próprios seres humanos para uma entidade que lhes é exterior e nascida na natureza, contra a qual somente Santana poderia protegê-lo.
No mais, é estranho para mim ver esse sentido "demoníaco" do touro, numa região em que o gado foi base de surgimento de toda a civilização aqui reinante. Ainda mais quando vemos toda a força e beleza dos bois dos reisados e "bumba meu boi" pelo Brasil afora, dando-lhe um sentido absolutamente lúdico.
Penso que somente uma civilização totalmente desprovida de sentimento com esse animal (que o vê apenas como valor de troca ou uso) é que seria capaz de significá-lo apenas como portador do mal. Mesmo nos reisados, os bois morrem e renascem, com cores e festas, danças e músicas que o celebram.
Bem...essas observações servem apenas para dialogar com meus amigos caicoenses. São impressões esparsas que em caso de provocar um debate, poderão ganhar mais sistematicidade.
Essas observações críticas não tiram, em hipótese alguma, o valor e a importância de tudo quanto se produz por lá e muito menos o que foi o Auto de Santana. Por tudo o que foi, nas condições em que foi, é motivo de todos os parabéns.
Abraços a todos e todas
Para quem não sabe, o Auto de Santana é um espetáculo teatral montado com artistas locais e encenado em Caicó e Currais Novos (lá também tem Festa de Santana em período bem próximo).
Conversando com algumas pessoas da produção fiquei surpreendido ao saber que tiveram apenas 22 dias de ensaio. Pessoas que conhecem o processo de produção por dentro sugeriram que o órgão estadual de cultura não concordou com a proposta apresentada pelos atores locais de que toda a produção (trilha sonora, filmagem, cenário, texto, direção, etc.) fosse feita por pessoas da região. Ao que parece, pretendiam que o processo de produção (técnica, artística e conceitual) continuasse dirigido por profissionais já consagrados da capital. Via-se a emoção dos profissionais (especialmente os atores e atrizes) em conseguirem levar a cabo um processo de produção que parecia fadado ao fracasso, como resultado de uma sutil sabotagem do pouco tempo.
Há um grande desafio em espetáculos como esse que é contar uma mesma história, todos os anos, o que exige que isso seja feito, a cada ano, de uma forma diferente. Para quem escreve, pensa e realiza, trata-se, sempre de, ao mesmo tempo, buscar surpreender os locais que assistem o espetáculo todos os anos, e fazer com que aqueles que assistem pela primeira vez possa se apropriar daquele conteúdo que é, essencialmente, o de mostrar a devoção daquele povo àquela santa.
Nos outros anos, assisti espetáculos cujo texto trazia consistência e beleza, mas tinha uma óbvia generalidade na celebração do povo sertanejo e de Santana. Ficava claro que os autores não "viviam" ali...O texto deste ano, escrito pelo professor Félix, por sua vez, conseguiu trazer e mostrar os elementos vitais do mito fundador da cultura do sertão seridoense (poderia citar o sertanejo "jogado" no meio do sertão sem outra proteção que não sua própria fé, o touro que o ataca e a devoção à Santana que o salva).
Nele, o sertanejo é partejado sob as bençãos e cuidados dos quatro elementos naturais (fogo, água, ar e terra). Tendo perdido uma vaca, o sertanejo clama por todos os santos e santas católicos. Como efeito, os quatro elementos, enciumados pelo sertanejo ter procurado ajuda dessas entidades, castigam o sertanejo com o envio de um touro ameaçador. Em cena, vemos uma criatura que se compõe dos sete pecados capitais que são derrotadas quando o sertanejo, lembrando-se de que aquele dia é o dia em honra a Santana, clama sua proteção. Ela chega, derrota o touro e abençoa o sertanejo.
A agradável surpresa de ver somente artistas e técnicos seridoenses mobilizados a produzir um espetáculo cuja centralidade é mostrar o cerne da própria cultura local me fizeram (re)pensar algumas questões que sempre matizaram minha relação com a cultura seridoense (ou seja, com aquele ambiente que me formou e ainda me serve como lente) e com os artistas locais (com quem compartilhei/compartilho reflexões e projetos).
Assim, o que pode parecer "xenofobismo" artístico (para aqueles que pensam que os "meninos" do interior não teriam competência para produzir um belo espetáculo) é, de fato, demonstração de maturidade e ousadia que merece apoio e desdobrar-se em ações mais consistentes de qualificação do trabalho que lá é realizado, pois, independentemente do êxito desse trabalho, permanecem as lacunas de uma baixa formação técnica; ausência de uma política cultural que implemente mecanismos e processos de manutenção de grupos e formação de platéias; e a ausência de uma visão política (e coletiva) de cultura pelos próprios artistas.
No aspecto técnico, os artistas seridoenses se mantém prisioneiros de cursos esporádicos e o refletir sobre o que se faz, nas péssimas condições em que se faz arte e cultura na região, dependentes de parcerias frágeis e circunstanciais, que não estruturam, a médio e longo prazo, qualquer projeto cultural.
Mas, como já abordei uma outra vez aqui neste espaço, não há também, da parte dos artistas locais, um projeto cultural. Ou seja, não se tem um acúmulo coletivo que defina mecanismos de financiamento e gestão de uma política cultural local; não se apresenta propostas que condensem uma política de formação técnica e de platéia; de familiarização das diversas linguagens entre crianças e jovens. Tudo é incerto. É provisório. É amador.
Por fim, há também uma questão que me parece conceitual, quanto ao sentido que atribuímos ao fazer artístico. Como qualquer linguagem, na arte expressamos conceitos, valores, mensagens, desejos, concepções. Nenhuma arte está imune a isso. A arte é o espaço, por excelência, de significar e ressignificar tudo. No caso específico do Auto de Santana, sempre que o vejo, penso (equivocadamente ou não) o quanto estamos perdendo uma ótima oportunidade de ressignificar os signos que estruturam o Mito Fundador dos próprios seridoenses. E deixamos escapar isso, reforçando todo um conservadorismo que se expressa e se lança como "naturalidade".
O texto de Félix, com todo o seu brilhantismo e profundidade, não consegue (ou não pretende) sequer dar uma "mexida" nos traços mais conservadores da estrutura mítica branca, portuguesa, cristã, que funda a cultura do sertão seridoense. Assim, a narrativa do Auto de Santana deste ano manteve o silenciamento das culturas indígenas milenares que aqui se encontravam antes dos portugueses e que foram destroçadas, restando delas pouco mais que as referências topográficas (que um observador mais cuidadoso inquirirá: "por que nomes cunhados em dialeto indígena sem que encontremos um único indígena no lugar?).
Esse silêncio, presente na lenda primeva se mantém na trama do Auto.
Na urdidura da trama, as forças da natureza se instituem como ameaçadoras ao vaqueiro na medida em que criam o Touro ameaçador, condensador de todos os pecados capitais. Aí vejo duas questões a serem tratadas: uma diz respeito à demonização (do mesmo jeito que ocorre no Mito Fundador) do Touro. Se na lenda de origem da cidade, ele é expressão de um (misterioso) espírito indígena, aqui ele aparece como resultado de uma ira (ou ciúme) das forças da natureza quanto ao apego do sertanejo com as entidades católicas. Dessa forma, o texto reforça uma visão cristã (medieval) que demonizava a adoração (pagã) aos quatro elementos fundadores da natureza e desloca a origem dos pecados capitais dos próprios seres humanos para uma entidade que lhes é exterior e nascida na natureza, contra a qual somente Santana poderia protegê-lo.
No mais, é estranho para mim ver esse sentido "demoníaco" do touro, numa região em que o gado foi base de surgimento de toda a civilização aqui reinante. Ainda mais quando vemos toda a força e beleza dos bois dos reisados e "bumba meu boi" pelo Brasil afora, dando-lhe um sentido absolutamente lúdico.
Penso que somente uma civilização totalmente desprovida de sentimento com esse animal (que o vê apenas como valor de troca ou uso) é que seria capaz de significá-lo apenas como portador do mal. Mesmo nos reisados, os bois morrem e renascem, com cores e festas, danças e músicas que o celebram.
Bem...essas observações servem apenas para dialogar com meus amigos caicoenses. São impressões esparsas que em caso de provocar um debate, poderão ganhar mais sistematicidade.
Essas observações críticas não tiram, em hipótese alguma, o valor e a importância de tudo quanto se produz por lá e muito menos o que foi o Auto de Santana. Por tudo o que foi, nas condições em que foi, é motivo de todos os parabéns.
Abraços a todos e todas
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
Impressões da Festa de Santana 2010, parte 1
Minhas visitas a Caicó têm se dado numa média de uma vez por ano. Sempre é um momento agradável, em que revejo amigos de infância e de adolescência, bem como amigos conquistados mais recentemente por ocasião de minha passagem como professor do CERES. Quando vou a Caicó me encho de vários sentimentos bons, saudosos, mas também olho para a cidade com os olhos de quem - no fundo - se sente ligado não apenas ao seu passado, mas ao seu presente e ao seu futuro. Penso que talvez seja isso que esteja nas profundezas do que alguns chamam de "estar preso às suas origens" ou sentir-se "enraizado". Ainda que premido por globalizações e pós-modernidades, ainda olho para a terra onde fui parido e sinto-me (em alguma medida) ligado ao seu destino. Por isso tantas postagens relacionadas a esse lugar (veja http://quixotesforrosebaioes.blogspot.com/search/label/Caic%C3%B3)Este ano fui à Festa de Santana e voltei com uma vontade danada de postar minha impressão sobre o que vi por lá e sobre as conversas que tive com pessoas casualmente encontradas, para conversas casuais e pautas aleatórias.
Em primeiro lugar, vi que o Complexo Turístico denominado Ilha de Santana conseguiu se consolidar como centro das atividades mundanas da Festa (já que a parte religiosa continua ali nos arredores da Matriz de Santana), ao mesmo tempo em que desafogou toda a área que circundava a Matriz, desconcentrando o fluxo de pessoas, tornando suportável o ir e vir de gente pelas ruas ao redor da Praça da Liberdade e Praça da Matriz, possibilitando que qualquer um possa curtir a Festa como bem entender: se quiser levar os filhos aos brinquedos instalados na Ilha o fará sem empurra-empurra de gente; se quiser beber e comer acompanhado de uma boa conversa, igualmente, poderá fazê-lo; e se, por fim, estiver a fim de ficar enfiado numa multidão ouvindo uma banda de forró ("de plástico", como diz meu colega professor de saxofone JP), também poderá. Ainda assim, caso queira ver um belo espetáculo cênico sobre o culto dos locais à Santana ou participar de momentos de pura espontaneidade e acolhimento, pode programar-se na Casa de Cultura Popular, onde era o Sobrado do Pe. Guerra. Aliás, na Casa de Cultura Popular, onde mais fui, o clima de aconchego reinante me fez ter a sensação de estar em família ou junto de amigos de longas datas, sem que, de fato, conhecesse a maioria dos que estavam ali. E ali vimos músicos, poetas, atores e atrizes, desfilarem sua arte como se estivéssemos na intimidade de nossas respectivas casas. Parabéns ao pessoal da Casa (Dodora, Custódio e Santana - a moça que nos atendia).
Apesar disso, não posso deixar de registrar que o Poço de Santana continua sendo apenas uma mancha de água circundando lateralmente a Ilha, carente de uma verdadeira limpeza e do seu reconhecimento como berço daquela civilização (sim, Diógenes da Cunha Lima já disse que o Seridó é uma civilização...rs).
Um outro registro crítico que me parece ser necessário ser feito é a baixa diversidade da programação do palco central da Ilha. Ali, todas noites, o que vemos são aquelas bandas que o vocalista anuncia com toda pompa, aos berros: "forrozãããoooo Merdacombostaaaa"...Aquele espaço poderia acolher uma diversidade de artistas, dos mais variados estilos e, assim, oferecer à população algo mais do que já se conhece e já se ouve por aí...é uma questão delicada que envolve muitas outras questões, mas conhecendo outras festas em que o poder público investe recursos para trazer ou promover artistas, vejo que é possível (e saudável) que a programação cultural de um evento do porte da Festa de Santana, num palco com aquelas dimensões, seja marcada pela DIVERSIDADE e não pela UNIFORMIDADE cultural. Quem quiser saber mais é só procurar ver como se organizam eventos grandiosos como o Festival de Arte e Cultura de Garanhuns, o Festival de Inverno de Campina Grande ou mesmo o Festival Gastronômico de Garanhuns ou de Cerro Corá.
Próxima postagem tentarei escreverei sobre o Auto de Santana 2010.
Abraços a todos.
sexta-feira, 30 de julho de 2010
Um dia solto no céu
Bom final de semana a todos e todas. O escrito abaixo nasceu no meio de uma reunião em um assentamento. Às vezes acontece isso comigo: me ausento de uma dada situação (normalmente quando muitas informações circulam, barulhentas ou não) e ao me focar em algo viajo e de um lugar interior que não sei onde é, pululam frases soltas que vão sendo costuradas e tecidas como se um Outro assumisse o controle de minhas mãos...E lá vai uma poesia saindo...Beijos.
Saí de mim.
Andei por
novas veredas.
Desafiei demônios.
Recompus meus estoques afetivos e emocionais.
Amores teimosos, indolentes e desafiadores.
Medos vencidos, sonhos proclamados,
entrei no céu e
umedeci asas de anjos.
Abri trilhas nas nuvens.
Nadei desejos, palavras e promessas doces.
Jorrei chuvas, então, e
olhei, extasiado,
delicadas pétalas de rosas,
emaranhadas em cheiro de terra molhada,
emergirem como um sopro vulcânico,
brincantes como as burrinhas dos reisados,
amantes como as mulheres de Chico,
nervosamente intensas como
Ondas do mar lambendo pedras...
Saí de mim.
Andei por
novas veredas.
Desafiei demônios.
Recompus meus estoques afetivos e emocionais.
Amores teimosos, indolentes e desafiadores.
Medos vencidos, sonhos proclamados,
entrei no céu e
umedeci asas de anjos.
Abri trilhas nas nuvens.
Nadei desejos, palavras e promessas doces.
Jorrei chuvas, então, e
olhei, extasiado,
delicadas pétalas de rosas,
emaranhadas em cheiro de terra molhada,
emergirem como um sopro vulcânico,
brincantes como as burrinhas dos reisados,
amantes como as mulheres de Chico,
nervosamente intensas como
Ondas do mar lambendo pedras...
sábado, 24 de julho de 2010
Cotas e contas...DESEMPENHO DE COTISTAS FICA ACIMA DA MÉDIA
Em minhas aulas, vez por outra, a questão das cotas aparecem como grande polêmica...vez por outra, dedicamos um tempo para trocar impressões - eu e a turma - e sempre ficamos com a sensação de que o tempo foi curto ou que mais argumentos faltaram para compor um quadro que nos ajude a refletir mais sobre a questão. Sobre isso, publico aqui matéria originalmente publicada n'O Estado de São Paulo, dia 17 de julho passado. Ilumina alguns aspectos da questão, inclusive o tradicional argumento de que os beneficiários das cotas "rebaixariam" o nivel da formação oferecida pelas instituições educacionais e, consequentemente, o nível dos profissionais formados, trazendo prejuízos à toda a sociedade que teria que conviver com profissionais de "baixa qualidade". O processo de aprendizagem é dinâmico (quase todos os pedagogos e psicólogos contemporâneos atestam isso) e aquele que hoje está em um nível "não aceitável" para determinado padrão avaliativo, em um momento posterior, face um determinado estímulo, pode superar esse nível e alcançar um outro "padrão". Compreender isso é um desafio tanto às mentes pedagógicas tradicionais, que entendem como "natural" e "inevitável" que haja uma incapacidade de aprendizagem de quem não está em determinado padrão de aprendizagem (dada sua origem social), como também para aqueles que "vitimizam" as pessoas oriundas das camadas excluídas de nossa sociedade e defendem uma postura condescendente com as dificuldades de superação que normalmente apresentam ao entrar nas instituições educacionais.
Abraços.
"Desempenho de cotistas fica acima da média
17 de julho de 2010
http://www.estadao. com.br/estadaode hoje/20100717/ not_imp582324, 0.php
Mariana Mandelli - O Estado de S.Paulo
Estudos realizados pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e pela Universidade de Campinas (Unicamp) mostraram que o desempenho médio dos alunos que entraram na faculdade graças ao sistema de cotas é superior ao resultado alcançado pelos demais estudantes.
O primeiro levantamento sobre o tema, feito na Uerj em 2003, indicou que 49% dos cotistas foram aprovados em todas as disciplinas no primeiro semestre do ano, contra 47% dos estudantes que ingressaram pelo sistema regular.
No início de 2010, a universidade divulgou novo estudo, que constatou que, desde que foram instituídas as cotas, o índice de reprovações e a taxa de evasão totais permaneceram menores entre os beneficiados por políticas afirmativas.
A Unicamp, ao avaliar o desempenho dos alunos no ano de 2005, constatou que a média dos cotistas foi melhor que a dos demais colegas em 31 dos 56 cursos. Entre os cursos que os cotistas se destacaram estava o de Medicina, um dos mais concorridos - a média dos que vieram de escola pública ficou em 7,9; a dos demais foi de 7,6.
A mesma comparação, feita um ano depois, aumentou a vantagem: os egressos de escolas pública tiveram média melhor em 34 cursos. A principal dificuldade do grupo estava em disciplinas que envolvem matemática"
Abraços.
"Desempenho de cotistas fica acima da média
17 de julho de 2010
http://www.estadao. com.br/estadaode hoje/20100717/ not_imp582324, 0.php
Mariana Mandelli - O Estado de S.Paulo
Estudos realizados pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e pela Universidade de Campinas (Unicamp) mostraram que o desempenho médio dos alunos que entraram na faculdade graças ao sistema de cotas é superior ao resultado alcançado pelos demais estudantes.
O primeiro levantamento sobre o tema, feito na Uerj em 2003, indicou que 49% dos cotistas foram aprovados em todas as disciplinas no primeiro semestre do ano, contra 47% dos estudantes que ingressaram pelo sistema regular.
No início de 2010, a universidade divulgou novo estudo, que constatou que, desde que foram instituídas as cotas, o índice de reprovações e a taxa de evasão totais permaneceram menores entre os beneficiados por políticas afirmativas.
A Unicamp, ao avaliar o desempenho dos alunos no ano de 2005, constatou que a média dos cotistas foi melhor que a dos demais colegas em 31 dos 56 cursos. Entre os cursos que os cotistas se destacaram estava o de Medicina, um dos mais concorridos - a média dos que vieram de escola pública ficou em 7,9; a dos demais foi de 7,6.
A mesma comparação, feita um ano depois, aumentou a vantagem: os egressos de escolas pública tiveram média melhor em 34 cursos. A principal dificuldade do grupo estava em disciplinas que envolvem matemática"
terça-feira, 13 de julho de 2010
TRAJETÓRIAS E TRAGÉDIAS...
Em meio ao noticiário policial da moda...
Ele...negro e pobre...estudava de dia e frequentava as atividades de um projeto social executado por uma ONG num bairro de periferia de uma metrópole do sul do país. Nunca havia ganho, sequer, um velocípede de presente dos pobres pais.
Ela...branca, como a maioria das meninas que nascem no Sul do país...estudou em escola pública também, já que os pais não tinham como sustenta-la em escola privada. Sonhava em ganhar uma Barbie de presente de aniversário.
Ele...logo cedo, seus atributos no mais popular esporte do país começaram a aparecer...bom de bola, percebeu que nesse ambiente poderia alcançar uma qualidade de vida que seus pais jamais alcançaram, nem seus antepassados mais distantes...
Ela...logo cedo, percebeu que seus (belos) atributos físicos poderiam dar-lhe oportunidades e abrir portas cujos resultados poderiam ser, sim, uma melhoria de qualidade de vida que poucas meninas da sua idade teriam...com o apoio das professoras da escola sempre compunha grupos de dança onde as meninas ensaiavam e reproduziam coreografias daqueles grupos de Axé muito em moda na época. Assim revelava suas qualidades corporais envolta no universo libidinoso e sexuado que aquelas músicas e coreografias promoviam.
Ele, mais tarde, teve seu talento futebolístico reconhecido e passou a treinar em um grande clube da capital...depois foi contratado por outro...foi adquirindo status e respeito público inimaginável. Tornou-se famoso. Campeão estadual. Brasileiro. Já conseguia comprar carrões caros e presentear amigos de infância com outros carrões igualmente caros. Tudo seguia um roteiro cinematográfico.
Ela, mais tarde, já conseguia adentrar-se no mundo da moda e no mercado do corpo, utilizando-se de sua reconhecida beleza. Desfiles, fotos, campanhas publicitárias...tudo isso dava um pouco de grana, mas, principalmente, abria portas para outras possibilidades de ganhos financeiros: fazer filmes pornô e frequentar festas privê (voltadas a empresários, artistas, políticos e jogadores de futebol), um (sub)mundo lúdico-sexual bem conhecido mas pouco investigado, onde rola muita grana e prostituição. Com a grana que ganhava, já podia se vestir com as roupas que sempre desejou. Ter os carros que sempre quis. E já se organizava para comprar um apartamento próprio.
Ele, envolto no status proporcionado pela fama imediata no mundo do futebol, é convidado a uma festa: bebida e mulheres, livremente expostas para serem bebidas e comidas. Uma reprodução das festas em honra a Baco ou a Dionísio, na antiguidade greco-romana...afinal, ali estavam divindades modernas, midiáticas...
Ela, já totalmente enturmada no circuito sexista, é convidada a participar de uma das festas "de bacanas".
Essas duas trajetórias se encontram. Explodem em noite de intensa orgia.
Um dos desfechos possíveis dessa história anda pululando pelos principais espaços da mídia...infelizmente...tristemente...
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